Traqueostomia

Traqueostomia: O Que É, Para Que Serve e Como Cuidar em Casa

A alta hospitalar de um paciente com traqueostomia costuma vir acompanhada de uma sensação conhecida por quase todo cuidador: a de que a responsabilidade mudou de mãos rápido demais. No hospital havia equipe, monitor e rotina. Em casa, há a família, a cânula e uma lista de cuidados que precisam acontecer todos os dias.

A boa notícia é que esses cuidados são aprendíveis. Eles seguem uma lógica: manter a cânula desobstruída, o ar umidificado, a pele do estoma limpa e a fixação segura.

Este artigo explica o que é a traqueostomia, por que ela é indicada, quais são os tipos de cânula, como funcionam os cuidados domiciliares e quais sinais exigem ajuda imediata. Um aviso necessário: o conteúdo é informativo e não substitui o treinamento feito pela equipe que acompanha o paciente. Quando a orientação recebida no hospital for diferente da descrita aqui, vale a orientação da equipe, que conhece o caso.

Traqueostomia

O que é traqueostomia

Definição: A traqueostomia é um procedimento cirúrgico que cria uma abertura na parte da frente do pescoço até a traqueia, onde se insere um tubo chamado cânula. O ar passa a entrar e sair por essa cânula, sem depender do nariz, da boca e da garganta.

Traqueostomia ou traqueotomia: No uso clínico, os dois termos aparecem como sinônimos. O serviço de saúde britânico (NHS), por exemplo, apresenta a traqueostomia como “também chamada de traqueotomia”.

Temporária ou permanente: A traqueostomia pode ser mantida por um período e retirada quando o motivo que a justificou deixa de existir, ou pode ser definitiva. Essa decisão é da equipe médica e depende da condição de base.

O que muda com ela: O nariz aquece, umidifica e filtra o ar que respiramos. Com a traqueostomia, o ar chega à traqueia sem passar por esse caminho. É por isso que a umidificação ocupa um lugar tão central nos cuidados em casa.


Para que serve: as principais indicações

A traqueostomia é indicada quando a via aérea superior não consegue cumprir sua função com segurança. As situações mais comuns são:

  • Obstrução da via aérea superior: quando algo impede a passagem do ar pela garganta — tumores, lesões, inchaço importante ou alterações anatômicas.
  • Ventilação mecânica prolongada: pacientes que precisam de suporte ventilatório por muito tempo costumam ter o tubo da intubação substituído por uma traqueostomia, que é mais estável e confortável a longo prazo.
  • Dificuldade para eliminar secreções: quando a pessoa não consegue tossir e expelir o muco com eficiência, a cânula permite aspirar as secreções diretamente da traqueia.
  • Alteração da deglutição: a paralisia da musculatura da deglutição aumenta o risco de o alimento ou a saliva irem para as vias aéreas, e a traqueostomia pode fazer parte do manejo.

Cada indicação traz necessidades diferentes em casa. Um paciente que usa ventilador pela traqueostomia tem uma rotina bem distinta da de alguém que respira espontaneamente pela cânula. Por isso, o plano de cuidados é sempre individual.


Tipos de cânula

Entender a cânula que o paciente usa é o primeiro passo para cuidar bem dela. As principais diferenças estão em quatro pontos.

CaracterísticaOpçõesO que significa na prática
MaterialPlástica ou metálicaMuda a rotina de limpeza e o intervalo de troca definido pela equipe
Balonete (cuff)Com ou semO balonete inflado veda a traqueia ao redor da cânula; com ele inflado, a pessoa não consegue falar
Cânula internaCom ou semA cânula interna (endocânula) pode ser retirada para limpeza sem tirar a cânula toda
FenestraçãoFenestrada ou nãoA cânula fenestrada tem uma abertura que deixa o ar passar pelas cordas vocais e permite a fala

Válvula de fala: Alguns pacientes podem usar uma válvula que deixa o ar entrar pela cânula e sair pela boca e pelo nariz, o que permite falar. Antes de colocar a válvula, o balonete precisa estar totalmente vazio — com ele inflado, o ar não tem por onde sair. O uso da válvula é sempre autorizado e orientado pela equipe.

Pressão do balonete: Quando a cânula tem balonete e ele precisa ficar inflado, a pressão é medida com um aparelho próprio (cufômetro) e mantida na faixa orientada pela equipe. Pressão alta demais pode lesionar a parede da traqueia; baixa demais deixa de vedar.


Cuidados em casa: a rotina diária

Os cuidados domiciliares se organizam em cinco frentes. A frequência de cada uma é definida pela equipe que acompanha o paciente; os valores abaixo são os descritos em manuais e diretrizes de referência.

1. Aspiração de secreções

A aspiração remove o muco que o paciente não consegue eliminar sozinho e é o cuidado que mais previne a obstrução da cânula. Não existe uma periodicidade fixa: aspira-se quando há necessidade — ruído de secreção, tosse ineficaz, desconforto respiratório ou queda da saturação.

A diretriz da Associação Americana de Cuidados Respiratórios (AARC), atualizada em 2022, traz os parâmetros principais:

  • Pressão de aspiração: abaixo de −200 mmHg em adultos e abaixo de −120 mmHg em crianças e recém-nascidos.
  • Duração: no máximo 15 segundos por passagem da sonda. Manuais de hospitais brasileiros costumam ser mais conservadores e orientar até 10 segundos.
  • Profundidade: aspiração rasa, de rotina. A sonda não deve ir além do necessário para alcançar a secreção.
  • Tamanho da sonda: ela deve ocupar só uma parte da luz da cânula — menos da metade, em adultos — para que o ar continue passando durante o procedimento.
  • Soro fisiológico: não deve ser instilado na cânula de rotina.
  • Oxigênio antes: pacientes que usam oxigênio costumam ser pré-oxigenados antes da aspiração, conforme orientação da equipe.

O aspirador de secreção é o equipamento que gera essa pressão negativa. Em casa, ele precisa ter regulagem de pressão e ficar sempre montado e pronto para uso, porque a necessidade de aspirar pode surgir a qualquer momento.

2. Umidificação

Sem a passagem pelo nariz, o ar chega seco à traqueia, e a secreção fica mais espessa e difícil de aspirar. Por isso a umidificação é contínua. Ela pode ser feita com um filtro trocador de calor e umidade — conhecido como “nariz artificial”, encaixado na saída da cânula — ou, quando o filtro não é usado, com nebulização, conforme orientação da equipe. Pacientes em ventilação recebem a umidificação pelo próprio circuito, com umidificador aquecido ou filtro.

3. Limpeza da cânula interna

Quando a cânula tem endocânula, ela é retirada e higienizada várias vezes ao dia. O Manual de Traqueostomia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz orienta a limpeza três vezes ao dia ou sempre que houver sujidade, segurando sempre a base da cânula externa durante a retirada, para que ela não se desloque.

4. Cuidado com o estoma

O estoma é a abertura na pele do pescoço. Ele é limpo com gaze umedecida em soro fisiológico, removendo secreção acumulada ao redor da cânula, e mantido seco. Vermelhidão, inchaço, secreção com mau cheiro ou sangramento são sinais para avisar a equipe.

5. Fixação (cadarço)

O cadarço ou fixador que segura a cânula no pescoço é trocado diariamente, ou antes, se estiver úmido ou sujo. A tensão certa deixa passar um dedo entre a fixação e o pescoço: mais apertado machuca a pele; mais frouxo aumenta o risco de a cânula sair. A troca da fixação é feita, de preferência, por duas pessoas — uma segura a cânula enquanto a outra troca o cadarço.


Troca da cânula: com que frequência

Não há consenso na literatura sobre o intervalo ideal de troca da cânula em adultos com traqueostomia estabelecida. Uma revisão publicada em 2024 na revista Laryngoscope (Spiller et al.) aponta que a maioria dos fabricantes recomenda a troca mensal, mas que essa recomendação não foi validada por estudos, e que intervalos de um a seis meses são praticados.

Protocolos hospitalares brasileiros adotam regras próprias. Um protocolo publicado na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (Soares et al., 2018), por exemplo, define troca a cada 30 dias para cânula metálica e em até 14 dias para a plástica.

Na prática, quem define o intervalo — e quem faz a troca, ou treina o cuidador para fazê-la — é a equipe que acompanha o paciente. O que vale para todos os casos é ter sempre uma cânula reserva ao alcance da mão, no tamanho indicado pela equipe.


Sinais de alerta e emergências

As três emergências mais comuns com a traqueostomia são a cânula deslocada ou que saiu, a cânula obstruída e o sangramento no estoma. Obstrução e deslocamento aparecem entre as causas mais frequentes de incidentes graves, o que reforça a importância da aspiração e da fixação bem feitas.

Procure atendimento de urgência — ou ligue para o SAMU (192) — diante de:

  • Dificuldade para respirar que não melhora com a aspiração
  • Sonda de aspiração que não passa pela cânula
  • Cânula que saiu e não pode ser recolocada
  • Sangramento ativo pelo estoma ou pela cânula
  • Lábios ou pontas dos dedos azulados, confusão ou sonolência anormal

Avise a equipe que acompanha o paciente quando houver:

  • Febre associada a mudança no aspecto ou aumento da quantidade de secreção
  • Vermelhidão, inchaço ou secreção ao redor do estoma
  • Escape de ar pela boca em quem usa balonete inflado
  • Cânula que parece mais para fora do que o habitual

Os protocolos de emergência usados por equipes de saúde para cânula obstruída ou deslocada seguem uma sequência: retirar a válvula de fala ou a tampa, se houver; oferecer oxigênio; tentar passar a sonda de aspiração; e, se ela não passar, a cânula é considerada obstruída. O cuidador deve ser treinado pela equipe sobre o que fazer em cada etapa no caso específico do paciente, antes da alta.

O que deixar sempre à mão: aspirador montado e testado, sondas de aspiração, cânula reserva no tamanho indicado pela equipe, cadarço extra, gaze, soro fisiológico e o telefone da equipe de referência.


Traqueostomia e ventilação em casa

Parte dos pacientes traqueostomizados precisa de suporte ventilatório em casa, contínuo ou só durante o sono. Nesses casos, o ventilador ou o BiPAP é conectado à cânula por um circuito próprio, com umidificação adequada, e os parâmetros são definidos pelo médico.

A configuração do circuito, o tipo de válvula de exalação e os alarmes variam conforme o equipamento e a condição clínica, e precisam ser montados e conferidos pela equipe. Para quem já usa esse tipo de suporte, nosso artigo sobre como conectar o BiPAP na traqueostomia detalha as conexões. A categoria de ventilação mecânica não invasiva reúne os equipamentos de suporte ventilatório domiciliar.

Em crianças com risco de piora rápida, a diretriz da American Thoracic Society (2025) recomenda que haja sempre um cuidador treinado, acordado e atento presente.


FAQ — Perguntas Frequentes

Quem tem traqueostomia consegue falar?

Depende do tipo de cânula e do estado do balonete. Com o balonete inflado, o ar não passa pelas cordas vocais e a pessoa não consegue falar. Com o balonete vazio, com cânula fenestrada ou com válvula de fala, a fala pode ser possível, porque o ar volta a passar pela laringe. O uso da válvula de fala exige avaliação: o balonete precisa estar totalmente vazio antes de colocá-la, e a equipe — com frequência, o fonoaudiólogo — avalia se o paciente tolera a válvula e por quanto tempo.

Quem tem traqueostomia pode comer pela boca?

Em alguns casos, sim; em outros, não. A traqueostomia por si só não impede a alimentação oral, mas muitas das condições que levam a ela — alterações neurológicas, paralisia da musculatura da deglutição, ventilação prolongada — também comprometem a capacidade de engolir com segurança. A avaliação da deglutição, geralmente feita por fonoaudiólogo, define se a alimentação oral é possível, com que consistência de alimento e com que cuidados. Quando ela não é segura, a nutrição costuma ser feita por sonda. Nosso artigo sobre alimentação por sonda explica os cuidados nesse caso.

De quanto em quanto tempo devo aspirar?

Não há um intervalo fixo, e protocolos brasileiros reconhecem isso explicitamente: aspira-se conforme a necessidade. Os sinais de que é hora de aspirar são ruído de secreção na cânula, tosse que não consegue eliminar o muco, respiração mais rápida ou mais esforçada, inquietação e queda da saturação no oxímetro. Aspirar sem necessidade expõe a mucosa ao trauma da sonda; deixar de aspirar quando há secreção acumulada aumenta o risco de obstrução. Com o tempo, o cuidador aprende a reconhecer o padrão do paciente — algumas pessoas precisam de aspiração frequente, outras poucas vezes ao dia. A umidificação adequada reduz a espessura da secreção e, com isso, a dificuldade de aspirar.

Qual a pressão correta do aspirador de secreção?

A diretriz da AARC de 2022 recomenda manter a pressão de aspiração abaixo de −200 mmHg em adultos e abaixo de −120 mmHg em crianças e recém-nascidos. Esses são valores-limite, não metas: a equipe costuma orientar a menor pressão que remova a secreção com eficiência no caso específico. O aspirador doméstico precisa ter manômetro e regulagem de pressão, para que o valor seja conferido antes de cada uso. Pressão excessiva pode causar lesão e sangramento na mucosa da traqueia. Se a secreção estiver muito espessa e difícil de aspirar, o caminho não é aumentar a pressão por conta própria, e sim revisar com a equipe a umidificação e a hidratação.

A traqueostomia pode ser retirada?

Em muitos casos, sim. Quando a causa que levou à traqueostomia é resolvida — o paciente deixa de precisar de ventilação, a obstrução é tratada, a deglutição e o manejo de secreções melhoram —, a equipe pode iniciar o processo de retirada, chamado decanulação. O processo e os testes que antecedem a retirada definitiva são conduzidos pela equipe. Depois da retirada, a equipe acompanha o fechamento do estoma. Em outras situações, a traqueostomia é definitiva, e o foco passa a ser manter a rotina de cuidados segura e confortável no longo prazo.


Conclusão

Cuidar de uma traqueostomia em casa é manter quatro coisas em ordem: a cânula desobstruída, o ar umidificado, o estoma limpo e a fixação segura. A aspiração na hora certa e com a pressão certa, a umidificação contínua e a limpeza diária da cânula interna resolvem a maior parte dos problemas antes que eles virem emergência.

As emergências — cânula obstruída, cânula que saiu e sangramento — exigem preparo: material de reserva à mão, aspirador sempre montado e um plano combinado com a equipe antes da alta.

Os intervalos de troca, os parâmetros de aspiração e a configuração de ventilação são definidos pela equipe que acompanha o paciente. Nossa equipe orienta sobre aspiradores de secreção, umidificação e equipamentos de suporte ventilatório a partir da prescrição médica.


Referências Científicas

  1. Blakeman, T.C. et al. (2022). AARC Clinical Practice Guidelines: Artificial Airway Suctioning. Respiratory Care, 67(2), 258-271.
  2. Spiller, P. et al. (2024). Established Adult Tracheostomy Tube Exchange: How Often is Enough? The Laryngoscope, 134(7).
  3. Soares et al. (2018). Elaboração de protocolo de condutas em traqueostomias. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
  4. Amin, R. et al. (2025). Care of Infants and Children with Tracheostomies: An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine.
  5. Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Manual de Traqueostomia.
  6. National Health Service (NHS). Tracheostomy.
Facebook
Twitter
Email
Print
Picture of CPAP On
CPAP On

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados