Saturação de 97% é normal? E 94%? E se o oxímetro mostra 92% enquanto a pessoa dorme? A pergunta “qual é a saturação normal” parece ter uma resposta única, mas o número de referência muda conforme a idade, o momento do dia, a altitude da cidade e a presença de doença pulmonar.
Este artigo reúne os valores de referência para cada situação, com a fonte de cada um, e explica o que o oxímetro de dedo consegue e não consegue dizer. Se a leitura que motivou a busca foi baixa, nosso artigo sobre saturação baixa trata do que fazer, de como medir corretamente e de quando é emergência.
Um aviso necessário: os valores abaixo são referências populacionais. Para quem tem doença respiratória e é acompanhado por médico, a referência que vale é a definida pela equipe para aquele paciente.

O que é saturação
A saturação periférica de oxigênio, abreviada como SpO2, é a porcentagem da hemoglobina do sangue que está carregando oxigênio, estimada pelo oxímetro de pulso. Saturação de 97% significa que cerca de 97% da hemoglobina está ligada ao oxigênio.
Ela é diferente da pressão de oxigênio no sangue arterial (PaO2), medida pela gasometria — um exame de sangue colhido da artéria. A gasometria é mais precisa e mede também o gás carbônico, que o oxímetro não mede. É por isso que decisões como a indicação de oxigenoterapia domiciliar se baseiam na gasometria, e não no oxímetro de dedo.
Tabela de valores de referência
| Situação | Valor de referência | Fonte |
|---|---|---|
| Adulto saudável, acordado, ao nível do mar | 95% a 100% | FDA |
| Recém-nascido no teste do coraçãozinho (24 a 48 h de vida) | 95% ou mais, com diferença de até 3% entre mão direita e pé | Ministério da Saúde |
| Criança com doença aguda | Abaixo de 90%: indicação de oxigênio | OMS |
| Adulto saudável dormindo | Média de 96,5%; o valor mais baixo da noite fica, em média, perto de 90% | Gries & Brooks, 1996 |
| Paciente agudo sem risco de reter gás carbônico | Meta de 94% a 98% | Sociedade Torácica Britânica (BTS), 2017 |
| Paciente com DPOC e risco de reter gás carbônico | Meta de 88% a 92% | BTS, 2017 |
Saturação normal em adultos
Para a maioria das pessoas saudáveis, a saturação fica entre 95% e 100%, segundo a agência americana de medicamentos e alimentos (FDA). É a faixa que se espera encontrar em um adulto sem doença respiratória, em repouso, acordado e em cidade de baixa altitude.
Leituras de 99% ou 100% não indicam nada além de boa oxigenação. Leituras um pouco abaixo de 95% não significam, sozinhas, doença: o primeiro passo é conferir a técnica de medição — mãos frias, esmalte e movimento interferem na leitura — e repetir em outro dedo.
Quando a leitura baixa se confirma, ou vem acompanhada de falta de ar, cansaço aos pequenos esforços, confusão ou lábios arroxeados, a avaliação médica é o caminho.
Saturação normal em idosos
A oxigenação do sangue diminui um pouco com a idade. Estudos de gasometria mostram que a PaO2 cai gradualmente ao longo da vida (Crapo et al., 1999), e no sono a diferença também aparece: em um estudo com 350 pessoas saudáveis, os participantes com mais de 60 anos tiveram saturação mediana de 95,1% durante a noite, um pouco abaixo dos mais jovens (Gries & Brooks, 1996).
A diferença, porém, é pequena. A idade não é explicação suficiente para uma saturação persistentemente baixa em repouso. Em um idoso, uma leitura baixa confirmada deve ser investigada como em qualquer adulto, e não atribuída ao envelhecimento.
Saturação normal em recém-nascidos: o teste do coraçãozinho
Desde 2014, o teste do coraçãozinho é feito de forma universal no SUS (Portaria SCTIE/MS nº 20/2014). Ele usa o oxímetro para rastrear cardiopatias congênitas graves antes da alta da maternidade.
A medição é feita entre 24 e 48 horas de vida, na mão direita e em um dos pés. O resultado é considerado normal quando a saturação é de 95% ou mais nos dois pontos e a diferença entre eles é de até 3%, segundo o documento do Ministério da Saúde sobre a triagem. Valores fora dessa faixa levam à repetição do teste ou à investigação com ecocardiograma, conforme o protocolo da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Saturação em crianças
Em crianças saudáveis ao nível do mar, a referência é semelhante à do adulto. Para crianças doentes, o critério mais usado vem da Organização Mundial da Saúde: oxigênio está indicado para toda criança com saturação abaixo de 90% (OMS, 2016, citado por Graham et al., 2024).
Crianças com respiração acelerada, gemido ao respirar, retração das costelas, dificuldade para mamar ou comer, ou sonolência fora do habitual precisam de avaliação médica, independentemente do número no oxímetro.
Saturação durante o sono
A saturação cai um pouco durante o sono, inclusive em pessoas saudáveis. No estudo de Gries e Brooks (1996), com 350 pessoas sem doença, a saturação média durante a noite foi de 96,5%, e o valor mais baixo registrado ao longo da noite ficou, em média, em 90,4%. Ou seja: uma queda pontual até perto de 90% pode acontecer sem doença.
O que não é normal é a queda repetida. Na apneia obstrutiva do sono, a via aérea se fecha parcial ou totalmente várias vezes por hora, e a saturação cai a cada evento. Na polissonografia, uma das formas de definir um evento de hipopneia (respiração reduzida) é a redução do fluxo de ar associada a queda de 3% ou mais na saturação, ou a um microdespertar, conforme o manual da Academia Americana de Medicina do Sono (AASM).
Ronco alto, pausas respiratórias percebidas por quem dorme ao lado, sono que não descansa e sonolência durante o dia são os sinais que apontam para apneia do sono. O diagnóstico é feito por polissonografia ou por exame domiciliar do sono, e não pela leitura do oxímetro de dedo em uma noite.
Saturação na altitude
Quanto mais alta a cidade, menor a quantidade de oxigênio disponível no ar, e menor a saturação considerada normal. Um estudo com mais de 6 mil pessoas saudáveis nos Andes, do nível do mar até as cidades mais altas da região, mostrou que a saturação cai conforme a altitude aumenta, especialmente acima de 2.500 metros (Rojas-Camayo et al., 2018). Em crianças saudáveis de Quito, a 2.810 metros, a saturação mediana foi de 94,5% (Andrade Ortega et al., 2020).
Para a maioria das cidades brasileiras, que ficam abaixo de 1.500 metros, a referência de 95% a 100% continua valendo. Viagens para regiões de altitude elevada exigem orientação médica prévia para quem tem doença pulmonar ou usa oxigênio.
Saturação em quem tem DPOC
Pacientes com DPOC e outras doenças pulmonares crônicas frequentemente convivem com saturação abaixo da faixa geral. Para eles, a meta é diferente, e oxigênio a mais nem sempre é melhor.
A diretriz da Sociedade Torácica Britânica (O’Driscoll et al., 2017) recomenda:
- Meta de 94% a 98% para a maioria dos pacientes agudamente doentes que não têm risco de reter gás carbônico.
- Meta de 88% a 92% para pacientes com risco de insuficiência respiratória com retenção de gás carbônico, situação comum na DPOC avançada.
O motivo da meta mais baixa: nesses pacientes, oxigênio em excesso pode agravar a retenção de gás carbônico. Por isso o fluxo de oxigênio é prescrito, e não deve ser aumentado por conta própria para “chegar a 95%”. Nosso artigo DPOC tem cura? explica o controle da doença.
Quando o oxigênio domiciliar é indicado: As recomendações da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT, 2022) indicam a oxigenoterapia domiciliar prolongada na hipoxemia grave: PaO2 de 55 mmHg ou menos, ou saturação arterial (SaO2) de 88% ou menos; ou PaO2 de até 59 mmHg, ou SaO2 de até 89%, quando há edema, sobrecarga do coração direito (cor pulmonale) ou excesso de glóbulos vermelhos. Esses valores vêm da gasometria arterial, em fase estável da doença, e não do oxímetro de dedo. A mesma recomendação orienta o uso por, no mínimo, 15 horas por dia, com meta de saturação acima de 90%.
Com a prescrição em mãos, o concentrador de oxigênio é um dos equipamentos usados para a oxigenoterapia em casa.
O que o oxímetro de dedo consegue medir
O oxímetro é útil para acompanhar tendências e identificar quedas, mas tem limites que precisam ser conhecidos.
- Margem de erro: A FDA exige que oxímetros de dedo tenham erro médio (Arms) de no máximo 3% na faixa de 70% a 100%. Uma leitura de 95% pode corresponder a uma saturação real um pouco acima ou um pouco abaixo.
- Cor da pele: A FDA lista a pigmentação da pele entre os fatores que afetam a leitura. Um estudo com pacientes hospitalizados mostrou que o oxímetro superestimou a saturação real, em média, em 1,7% em pacientes asiáticos e 1,2% em pacientes negros, em comparação com a gasometria (Fawzy et al., 2022). Na prática, em pessoas de pele mais escura o oxímetro pode mostrar um valor normal quando a saturação real está mais baixa.
- Outros fatores: espessura e temperatura da pele, tabagismo atual e esmalte também interferem, segundo a FDA.
- Certificação no Brasil: oxímetros são equipamentos sob vigilância sanitária e precisam de certificação conforme a RDC ANVISA nº 549/2021 e a norma ABNT NBR ISO 80601-2-61, segundo o Inmetro. Na compra, vale conferir o registro do aparelho na ANVISA.
Os acessórios de oxigenoterapia reúnem itens para o acompanhamento em casa.
FAQ — Perguntas Frequentes
Saturação 94 é normal?
Em um adulto saudável ao nível do mar, 94% fica logo abaixo da faixa de 95% a 100% que a FDA descreve para a maioria das pessoas saudáveis. Antes de qualquer conclusão, vale repetir a medição com a mão aquecida, sem esmalte, em repouso e esperando o número estabilizar — boa parte das leituras um pouco baixas se corrige assim. Se 94% se confirma em repouso, sem sintomas, a conduta é comentar com o médico na próxima consulta. Em quem mora em cidade de altitude, valores um pouco menores podem ser esperados. Já em quem tem DPOC com risco de retenção de gás carbônico, 94% pode estar acima da meta recomendada de 88% a 92%. Falta de ar, cansaço intenso ou confusão mudam a situação: com esses sinais, a avaliação deve ser imediata.
Qual a saturação normal de um idoso?
A referência geral para idosos saudáveis é a mesma faixa de 95% a 100%, com uma redução pequena com a idade. No estudo de Gries e Brooks (1996), adultos saudáveis com mais de 60 anos tiveram saturação mediana de 95,1% durante o sono, pouco abaixo dos mais jovens. O ponto importante é que a idade explica só uma diferença discreta. Saturação persistentemente abaixo da faixa em repouso, num idoso, não deve ser atribuída ao envelhecimento: pode indicar doença pulmonar, cardíaca ou apneia do sono, e merece investigação.
Saturação cai quando estou dormindo. É normal?
Uma queda pequena é normal. Em pessoas saudáveis, a saturação média durante o sono fica em torno de 96,5%, e o valor mais baixo da noite chega, em média, perto de 90% (Gries & Brooks, 1996). O que não é normal é a queda que se repete muitas vezes por hora, acompanhada de ronco e pausas respiratórias, porque esse é o padrão da apneia obstrutiva do sono. Oxímetros com registro contínuo podem mostrar essas quedas, mas não fecham o diagnóstico: o exame que confirma ou descarta a apneia é a polissonografia, que mede a oxigenação junto com o fluxo de ar, o esforço respiratório e os estágios do sono. Se você percebe quedas frequentes no registro noturno, leve os dados ao médico.
Qual a saturação ideal para quem tem DPOC?
Para pacientes com DPOC que têm risco de reter gás carbônico, a diretriz da Sociedade Torácica Britânica recomenda meta de 88% a 92% durante o uso de oxigênio. Para pacientes com DPOC sem esse risco, a meta de 94% a 98% pode ser adotada. Quem define em qual grupo o paciente está é o médico, com base na gasometria arterial. Na oxigenoterapia domiciliar prolongada, a SBPT orienta manter a saturação acima de 90%, com uso mínimo de 15 horas por dia. O ponto prático para o paciente e o cuidador é não aumentar o fluxo de oxigênio por conta própria para alcançar 95% ou mais: em quem retém gás carbônico, isso pode piorar a retenção. Qualquer ajuste de fluxo deve ser feito com o médico.
O oxímetro de dedo é confiável?
Para acompanhamento em casa, sim, desde que usado com técnica correta e com as limitações em mente. Oxímetros aprovados pela FDA têm margem de erro média de até 3% na faixa de 70% a 100%. No Brasil, oxímetros precisam de certificação pela RDC ANVISA nº 549/2021. As principais fontes de erro são mãos frias, movimento, esmalte, má circulação e, de forma importante, a pigmentação da pele: em pessoas de pele mais escura, o oxímetro tende a superestimar a saturação real. Por isso, o número deve ser lido junto com os sintomas. Uma leitura normal não exclui um problema quando há falta de ar ou outros sinais de gravidade, e uma leitura baixa isolada, sem sintomas, deve ser confirmada antes de qualquer conclusão.
Conclusão
Para a maioria dos adultos saudáveis, saturação normal é de 95% a 100%. Esse número muda conforme a situação: recém-nascidos têm critério próprio no teste do coraçãozinho, crianças doentes recebem oxigênio abaixo de 90%, o sono traz quedas pontuais esperadas, a altitude reduz a faixa normal e pacientes com DPOC que retêm gás carbônico têm meta de 88% a 92%.
O oxímetro de dedo ajuda a acompanhar essas faixas em casa, com margem de erro conhecida e uma limitação importante em peles mais escuras. O número vale junto com os sintomas: falta de ar, confusão e lábios arroxeados exigem atendimento, qualquer que seja a leitura.
A indicação de oxigênio domiciliar é sempre médica, baseada em gasometria arterial. A partir da prescrição, nossa equipe orienta sobre concentradores e acessórios de oxigenoterapia.
Referências Científicas
- U.S. Food and Drug Administration (2025). Pulse Oximeter Basics. FDA Consumer Updates.
- U.S. Food and Drug Administration (2025). Pulse Oximeters. FDA Medical Devices.
- U.S. Food and Drug Administration (2013). Pulse Oximeters – Premarket Notification Submissions [510(k)s]: Guidance for Industry and Food and Drug Administration Staff.
- Brasil. Ministério da Saúde (2014). Portaria SCTIE nº 20, de 10 de junho de 2014.
- Brasil. Ministério da Saúde. Teste do coraçãozinho (oximetria de pulso) na triagem neonatal.
- Graham, H.R. et al. (2024). Hypoxaemia and risk of death among children. The Lancet Global Health.
- Gries, R.E. & Brooks, L.J. (1996). Normal Oxyhemoglobin Saturation During Sleep. Chest, 110(6).
- Crapo, R.O. et al. (1999). Arterial Blood Gas Reference Values for Sea Level and an Altitude of 1,400 Meters. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine.
- American Academy of Sleep Medicine. The AASM Manual for the Scoring of Sleep and Associated Events.
- Rojas-Camayo, J. et al. (2018). Reference Values for Oxygen Saturation from Sea Level to the Highest Human Habitation in the Andes. Thorax.
- Andrade Ortega, J.A. et al. (2020). Pulse Oximetry Curves in Healthy Children Living at Moderate Altitude. BMC Pediatrics.
- O’Driscoll, B.R. et al. (2017). BTS Guideline for Oxygen Use in Adults in Healthcare and Emergency Settings. BMJ Open Respiratory Research.
- Castellano, M.V.C.O. et al. (2022). Recomendações para oxigenoterapia domiciliar prolongada da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Jornal Brasileiro de Pneumologia.
- Fawzy, A. et al. (2022). Racial and Ethnic Discrepancy in Pulse Oximetry and Delayed Identification of Treatment Eligibility Among Patients With COVID-19. JAMA Internal Medicine.
- Inmetro (2026). Qual a regulamentação aplicável aos oxímetros?
