Roncar de boca fechada

Roncar de Boca Fechada: Causas e Soluções para Este Tipo de Ronco

A maioria das pessoas associa o ronco à respiração pela boca, mas existe um tipo de ronco que desafia essa lógica: o ronco de boca fechada. Quem ronca com a boca fechada está respirando pelo nariz, e mesmo assim produz som significativo — o que frequentemente causa confusão sobre a origem do problema e sobre como tratá-lo.

O ronco de boca fechada é clinicamente relevante porque indica que a fonte da vibração não está na cavidade oral, mas sim nas estruturas nasais ou no palato mole, e que o tratamento deve ser direcionado a essas áreas específicas. Soluções genéricas, como fitas adesivas para manter a boca fechada (chin straps), obviamente não resolvem esse tipo de ronco — pois a boca já está fechada.

Este artigo explica a fisiologia por trás do ronco nasal, como diferenciá-lo do ronco oral, quais são as causas específicas e quais tratamentos têm evidência de eficácia para cada cenário.


Tipos de Ronco: Classificação pela Origem

A medicina do sono classifica o ronco conforme a estrutura anatômica que produz a vibração. Essa classificação é fundamental porque direciona o tratamento (Vroegop et al., 2014, Sleep Medicine Reviews).

Ronco palatal

Produzido pela vibração do palato mole e da úvula contra a parede posterior da faringe. É o tipo mais comum e pode ocorrer tanto com boca aberta quanto fechada. Quando ocorre de boca fechada, o ar nasal passa pela nasofaringe e faz o palato mole vibrar antes de seguir para a orofaringe.

Ronco nasal

Produzido pela passagem turbulenta do ar através de estruturas nasais estreitadas. Pode envolver vibração das válvulas nasais, das conchas nasais hipertróficas ou de pólipos. O som tende a ser mais agudo e estridente que o ronco palatal.

Ronco lingual (base da língua)

Produzido pelo colapso posterior da base da língua contra a parede faríngea. Geralmente associado à posição supina e mais comum em pacientes com retrognatia ou macroglossia. Pode ocorrer de boca fechada quando a língua colapsa na hipofaringe durante respiração nasal.

Ronco faríngeo lateral (paredes laterais)

Produzido pelo colapso concêntrico das paredes laterais da faringe. Mais comum em pacientes obesos e frequentemente associado à apneia do sono mais grave. Pode ocorrer independentemente de a boca estar aberta ou fechada.

A Drug-Induced Sleep Endoscopy (DISE) é o exame mais preciso para identificar o local exato de colapso durante o sono, permitindo classificar o ronco e direcionar o tratamento de forma personalizada (Kezirian et al., 2011, The Laryngoscope).


Por que Alguém Ronca de Boca Fechada

Quando uma pessoa ronca com a boca fechada, o ar está entrando exclusivamente pelo nariz e encontrando obstrução em algum ponto entre as narinas e a orofaringe. As causas mais comuns incluem:

Obstrução nasal parcial

A causa mais intuitiva. Quando as vias nasais estão parcialmente obstruídas — por desvio de septo, hipertrofia de cornetos, pólipos ou edema alérgico — o ar que consegue passar cria turbulência e vibração das estruturas nasais.

Características: som mais agudo, tipo “assobio” ou chiado, que pode variar com o ciclo nasal (alternância natural de congestão entre as narinas) e piora com congestão.

Vibração do palato mole com respiração nasal

Esta é provavelmente a causa mais comum de ronco de boca fechada. O ar passa normalmente pelo nariz, mas ao chegar à nasofaringe encontra um palato mole flácido ou alongado que vibra com a passagem do fluxo aéreo.

Mecanismo: durante o sono, o tônus do músculo tensor do véu palatino diminui. Se o palato mole é anatomicamente longo ou flácido, sua margem livre (incluindo a úvula) vibra como uma bandeira ao vento quando o ar nasal passa por trás dele em direção à orofaringe (Reda et al., 2018, Clinical Otolaryngology).

Características: som mais grave e contínuo, similar ao ronco clássico, mas produzido com a boca fechada.

Colapso da válvula nasal

A válvula nasal (região mais estreita da cavidade nasal, localizada na transição entre vestíbulo e cavidade nasal propriamente dita) pode colapsar durante a inspiração vigorosa, especialmente em pacientes com cartilagens nasais fracas ou narinas estreitas.

Características: ronco que piora durante inspiração forçada, melhora com dilatadores nasais externos e pode ser reproduzido puxando a bochecha lateralmente (manobra de Cottle).

veja mais no nosso blog.

Colapso retrolingual de boca fechada

Em alguns pacientes, a base da língua colapsa posteriormente mesmo durante respiração nasal, especialmente na posição supina. Isso é mais comum em pacientes com retrognatia, macroglossia ou deposição de gordura na base da língua.

Roncar de boca fechada

Como Identificar se Você Ronca de Boca Fechada

Identificar o tipo de ronco é essencial para escolher o tratamento correto. Existem testes simples que podem orientar:

Teste do parceiro

O relato do parceiro é valioso: se a pessoa que ronca mantém a boca visivelmente fechada durante o ronco, a origem é nasal ou palatal com respiração nasal.

Teste da boca

Tente reproduzir o som do ronco com a boca aberta e depois com a boca fechada. Se o ronco só se reproduz com a boca fechada, a fonte é nasal ou palatal. Se ocorre em ambas as situações, o palato mole é provavelmente o principal responsável.

Teste nasal (manobra de Cottle)

Com a boca fechada, pressione suavemente uma narina para fechá-la e respire pela outra. Repita do outro lado. Se o ronco piora ou se sente dificuldade respiratória significativa em um dos lados, pode haver obstrução nasal unilateral.

Teste do dilatador nasal

Aplique um dilatador nasal externo (fita adesiva tipo Breathe Right) e observe se o ronco melhora significativamente. Se melhorar, a resistência nasal é um componente importante.

Avaliação profissional

O diagnóstico definitivo do tipo e origem do ronco requer avaliação otorrinolaringológica com:

  • Rinoscopia anterior e endoscopia nasal (visualização direta da cavidade nasal)
  • Nasofibrolaringoscopia (visualização da nasofaringe, palato, faringe e laringe)
  • DISE (visualização durante sono induzido)
  • Rinomanometria ou rinometria acústica (medição objetiva da resistência nasal)

Tratamentos Específicos para Ronco de Boca Fechada

O tratamento do ronco de boca fechada deve ser direcionado à causa identificada — e isso o diferencia significativamente do tratamento do ronco oral genérico.

Para obstrução nasal

Tratamento clínico:

  • Corticosteroides nasais (mometasona, fluticasona): tratamento de primeira linha para rinite alérgica e hipertrofia de cornetos. Reduzem o edema da mucosa nasal com uso contínuo por 4-8 semanas (Weiner et al., 1998, BMJ)
  • Lavagem nasal com solução salina: remove alérgenos, reduz inflamação e melhora o clearance mucociliar. Pode ser realizada com seringa, squeeze bottle ou irrigador nasal
  • Anti-histamínicos: para rinite alérgica, especialmente os de segunda geração (cetirizina, fexofenadina) que não causam sedação

Tratamento cirúrgico:

  • Septoplastia: correção do desvio de septo nasal — indicada quando há obstrução significativa (Kim et al., 2004, The Laryngoscope)
  • Turbinectomia ou turbinoplastia: redução das conchas nasais hipertróficas por radiofrequência, cauterização ou ressecção parcial
  • Polipectomia: remoção de pólipos nasais, frequentemente por via endoscópica

Dispositivos:

  • Dilatadores nasais externos: fitas adesivas que abrem as narinas, com eficácia demonstrada para ronco nasal leve
  • Dilatadores nasais internos: stents de silicone inseridos nas narinas, oferecendo maior dilatação que os externos

Para vibração do palato mole

Quando o ronco de boca fechada é produzido pelo palato mole vibrando com fluxo aéreo nasal:

Exercícios orofaríngeos (terapia miofuncional): Guimarães et al. (2009, AJRCCM) demonstraram que exercícios específicos para o palato mole reduzem a frequência e intensidade do ronco em 36% e 59%, respectivamente. Exercícios relevantes:

  • Elevação forçada do palato pronunciando “Ah” repetidamente
  • Sucção da língua contra o palato
  • Mastigação bilateral vigorosa

Implantes palatais (Pillar procedure): Inserção de hastes de poliéster no palato mole para enrijecê-lo e reduzir a vibração. Nordgård et al. (2004, Otolaryngology–Head and Neck Surgery) demonstraram redução significativa do ronco em 77% dos pacientes tratados com implantes palatais.

Radiofrequência palatal: Aplicação de energia de radiofrequência no tecido do palato mole para causar fibrose controlada e enrijecimento. É um procedimento ambulatorial minimamente invasivo com boa taxa de resposta para ronco palatal.

Uvulopalatofaringoplastia (UPPP): Cirurgia que remove tecido excessivo do palato mole e úvula. Reservada para casos refratários a tratamentos menos invasivos.

Para colapso da válvula nasal

  • Dilatadores nasais: primeira linha, não invasivos
  • Rinoplastia funcional: reconstrução ou reforço cartilaginoso da válvula nasal para pacientes com colapso valvular significativo

CPAP — Solução universal

O CPAP é eficaz para todos os tipos de ronco, incluindo o de boca fechada. A pressão positiva mantém a via aérea aberta em todos os níveis — nasal, palatal, lingual e faríngeo — independentemente do local específico de obstrução.

Para pacientes com ronco de boca fechada associado à apneia do sono, o CPAP com máscara nasal é particularmente adequado, pois o paciente já mantém a boca fechada naturalmente. Máscaras nasais são menores, mais leves e geralmente mais confortáveis que as oronasais, com menor taxa de fugas.

Para pacientes que abrem a boca durante o sono mesmo usando máscara nasal, a adição de chin strap (faixa de queixo) ou a opção por máscara nasal com selo oral integrado pode resolver a questão.


FAQ — Perguntas Frequentes

É normal roncar de boca fechada?

O ronco de boca fechada não é “anormal” no sentido de ser uma condição separada — é simplesmente um tipo de ronco cuja origem é nasal ou palatal, em vez de orofaríngea. É relativamente comum e representa uma parcela significativa dos roncadores habituais. Como qualquer tipo de ronco habitual, merece atenção médica se for frequente, intenso ou acompanhado de sinais de apneia do sono.

A fita de boca (mouth tape) ajuda no ronco de boca fechada?

Não. A fita de boca (ou chin strap) é projetada para manter a boca fechada durante o sono, forçando a respiração nasal. Se você já ronca de boca fechada, esse dispositivo não terá nenhum efeito — pois a boca já está fechada. O tratamento deve ser direcionado à causa nasal ou palatal do ronco.

Dilatador nasal resolve todo tipo de ronco de boca fechada?

Não. O dilatador nasal é eficaz quando a causa principal do ronco é a obstrução nasal (desvio de septo leve, colapso de válvula nasal, rinite). Se o ronco de boca fechada é produzido pelo palato mole vibrando (a causa mais comum), o dilatador nasal terá pouco ou nenhum efeito. O teste prático é simples: use o dilatador por algumas noites e observe se há melhora.

Como diferenciar ronco nasal de ronco palatal?

O ronco nasal tende a ser mais agudo e estridente, frequentemente descrito como “assobio” ou “chiado”, e varia conforme a congestão nasal. O ronco palatal é mais grave e contínuo, similar ao ronco clássico. O ronco nasal geralmente melhora com dilatadores nasais; o palatal não. A diferenciação definitiva é feita por nasofibrolaringoscopia ou DISE.

Spray nasal ajuda no ronco de boca fechada?

Depende do tipo de spray e da causa. Corticosteroides nasais (mometasona, fluticasona) são eficazes para ronco causado por rinite alérgica e hipertrofia de cornetos, com melhora progressiva em 2-4 semanas de uso contínuo. Descongestionantes tópicos (oximetazolina) oferecem alívio imediato, mas não devem ser usados por mais de 5 dias consecutivos. Sprays de solução salina são seguros para uso prolongado e auxiliam na higiene nasal.

Posso ter apneia do sono mesmo roncando de boca fechada?

Sim, absolutamente. O tipo de ronco (boca aberta ou fechada) não determina a presença ou ausência de apneia do sono. A apneia é definida pela ocorrência de pausas respiratórias e dessaturação de oxigênio, que podem ocorrer independentemente de como o ar entra (pelo nariz ou pela boca). Se há sinais de apneia (pausas observadas, engasgos, sonolência diurna), a polissonografia é indicada independentemente do tipo de ronco.


Conclusão

Roncar de boca fechada é um tipo específico de ronco que exige abordagem diferenciada. Entender que a origem não está na cavidade oral, mas sim na resistência nasal ou na vibração do palato mole com fluxo aéreo nasal, é essencial para evitar tratamentos ineficazes e direcionar a investigação corretamente.

O caminho para o tratamento eficaz passa por: identificar se a causa é nasal (obstrução anatômica, rinite, colapso valvular) ou palatal (palato mole flácido ou alongado), e então aplicar a terapia específica — desde corticosteroides nasais e dilatadores até exercícios orofaríngeos, procedimentos minimamente invasivos ou CPAP.

Para quem ronca de boca fechada e apresenta sinais de apneia do sono, o CPAP com máscara nasal é uma opção particularmente confortável e eficaz — aproveitando a tendência natural de manter a boca fechada durante o sono.


Referências Científicas

  1. Vroegop, A.V. et al. (2014). Drug-Induced Sleep Endoscopy in Sleep-Disordered Breathing: Report on 1,249 Cases. The Laryngoscope, 124(3), 797-802.
  2. Kezirian, E.J. et al. (2011). Drug-Induced Sleep Endoscopy: The VOTE Classification. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology, 268(8), 1233-1236.
  3. Reda, M. et al. (2018). The Role of the Palate in Snoring and Obstructive Sleep Apnea. Clinical Otolaryngology, 43(6), 1559-1564.
  4. Kim, S.T. et al. (2004). Nasal Septal Deviation: Effect on Nasal Function and the Outcome of Septoplasty. The Laryngoscope, 114(4), 764-769.
  5. Weiner, J.M. et al. (1998). Intranasal Corticosteroids versus Oral H1 Receptor Antagonists in Allergic Rhinitis: Systematic Review. BMJ, 317(7173), 1624-1629.
  6. Guimarães, K.C. et al. (2009). Effects of Oropharyngeal Exercises on Patients with Moderate OSA. AJRCCM, 179(10), 962-966.
  7. Nordgård, S. et al. (2004). Palatal Implants for the Treatment of Snoring: Long-Term Results. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 131(1), 106-110.
  8. Young, T. et al. (1997). Nasal Obstruction as a Risk Factor for Sleep-Disordered Breathing. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 99(2), S757-S762.
  9. Friedman, M. et al. (2004). Clinical Staging for Sleep-Disordered Breathing. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 130(1), 56-62.
  10. Sullivan, C.E. et al. (1981). Reversal of Obstructive Sleep Apnoea by CPAP. The Lancet, 1(8225), 862-865.
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