Motivos do Ronco: Principais Causas e Como Identificá-las

O ronco é um dos distúrbios mais prevalentes da medicina do sono, afetando 40% a 60% dos adultos em algum grau (Young et al., 1993, New England Journal of Medicine). Apesar da frequência, a maioria das pessoas desconhece o motivo específico pelo qual ronca — e essa falta de identificação é a principal razão pela qual tantas tentativas de tratamento falham.

O ronco não é uma doença única: é um sintoma com múltiplas causas possíveis, que podem atuar isoladamente ou em combinação. Compreender o mecanismo fisiopatológico por trás de cada causa permite direcionar o tratamento de forma eficaz, em vez de adotar soluções genéricas que frequentemente não funcionam.

Neste artigo, detalhamos os motivos cientificamente documentados do ronco, como identificar qual deles se aplica ao seu caso e quais abordagens terapêuticas são indicadas para cada situação.


O Mecanismo Básico: Como o Ronco é Produzido

Independentemente da causa, o ronco resulta de um mesmo fenômeno físico: a vibração dos tecidos moles da via aérea superior durante a passagem do ar inspiratório. Quando a via aérea está total ou parcialmente estreitada, o fluxo de ar se torna turbulento, fazendo com que estruturas como o palato mole, a úvula, as paredes faríngeas laterais e a base da língua vibrem — gerando o som do ronco (Stuck & Maurer, 2008, Sleep Medicine Reviews).

A intensidade e frequência do ronco dependem de três variáveis:

  1. Grau de estreitamento da via aérea — quanto mais estreita, mais turbulento o fluxo
  2. Velocidade do fluxo de ar — respiração mais rápida ou forçada aumenta o ronco
  3. Complacência dos tecidos — tecidos mais flácidos vibram mais facilmente

Cada motivo de ronco influencia uma ou mais dessas variáveis.


Causa 1: Anatomia da Via Aérea Superior

A anatomia individual é o fator mais determinante na predisposição ao ronco. Algumas pessoas nascem com estruturas que naturalmente estreitam a via aérea.

Palato mole alongado e úvula volumosa

Um palato mole longo e uma úvula grande reduzem o espaço retropalatal, facilitando o contato com a parede posterior da faringe durante o sono. A classificação de Friedman correlaciona o tamanho das amígdalas e a posição do palato com o risco de apneia (Friedman et al., 2004, Otolaryngology–Head and Neck Surgery).

Hipertrofia de amígdalas e adenoides

Amígdalas palatinas grau 3 ou 4 (na escala de Brodsky) obstruem significativamente a orofaringe. Em crianças, a hipertrofia de adenoides é a causa mais comum de ronco habitual e representa a principal indicação de adenoamigdalectomia (Marcus et al., 2012, Pediatrics).

Retrognatia (mandíbula retraída)

Uma mandíbula posicionada mais posteriormente reduz o espaço retrolingual, empurrando a base da língua contra a parede posterior da faringe. Pacientes com retrognatia apresentam risco aumentado de ronco e apneia mesmo com peso normal (Li et al., 2000, American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine).

Macroglossia

Uma língua proporcionalmente grande para o espaço intraoral, condição presente em síndromes como Down e Beckwith-Wiedemann, mas também como variação anatômica isolada, contribui para obstrução da via aérea posterior.

Como identificar: avaliação otorrinolaringológica com nasofibrolaringoscopia, cefalometria lateral e classificação de Mallampati/Friedman permitem mapear as estruturas envolvidas.


Causa 2: Obstrução Nasal

A respiração nasal é fisiologicamente superior à oral por múltiplas razões: o nariz filtra, aquece e umidifica o ar, além de gerar resistência positiva que estabiliza a via aérea inferior. Quando há obstrução nasal, a pessoa é forçada a respirar pela boca, o que favorece o colapso faríngeo e o ronco.

Desvio de septo nasal

O septo nasal desviado é uma das causas mais comuns de obstrução nasal crônica. Desvios significativos podem reduzir o fluxo aéreo nasal em até 50%, forçando a respiração oral durante o sono (Kim et al., 2004, The Laryngoscope).

Hipertrofia de cornetos

As conchas nasais inferiores podem hipertrofiar devido a rinite alérgica crônica, rinite vasomotora ou inflamação persistente, causando obstrução nasal variável que piora na posição deitada.

Rinite alérgica

A inflamação alérgica crônica causa edema da mucosa nasal, hipersecreção e obstrução. Estudos epidemiológicos demonstram associação significativa entre rinite alérgica e ronco habitual (Young et al., 1997, Archives of Internal Medicine).

Pólipos nasais

Formações benignas que crescem na cavidade nasal, frequentemente associadas a rinossinusite crônica, e que podem causar obstrução significativa.

Como identificar: congestão nasal crônica, respiração bucal habitual, boca seca ao acordar e ronco que melhora com descongestionante nasal são sinais sugestivos.


Causa 3: Excesso de Peso e Obesidade

A obesidade é o fator de risco modificável mais impactante para o ronco e a apneia do sono. O mecanismo é multifatorial e bem documentado.

Deposição de gordura cervical

O acúmulo de tecido adiposo na região parafaríngea comprime externamente a via aérea, reduzindo seu calibre. Uma circunferência cervical acima de 43 cm em homens (38 cm em mulheres) é um preditor independente de apneia do sono (Davies & Stradling, 1990, Thorax).

Gordura abdominal e mecânica respiratória

A obesidade abdominal reduz a capacidade residual funcional pulmonar, especialmente na posição supina. Isso diminui a tração longitudinal sobre a via aérea superior (efeito de estaiamento traqueal), tornando-a mais propensa ao colapso (Heinzer et al., 2005, American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine).

Evidência dose-resposta

Peppard et al. (2000, JAMA) demonstraram que um aumento de 10% no peso corporal aumenta em 6 vezes a probabilidade de desenvolver apneia do sono moderada a grave. Inversamente, a perda de 10% do peso corporal reduz o IAH em cerca de 26%.

Como identificar: IMC > 25, circunferência cervical elevada e ronco que piorou proporcionalmente ao ganho de peso são os indicadores.


Causa 4: Álcool e Substâncias Sedativas

O álcool é um dos potencializadores mais previsíveis do ronco — mesmo em pessoas que normalmente não roncam.

Mecanismo

O álcool atua como depressor do sistema nervoso central, relaxando seletivamente a musculatura da via aérea superior de forma desproporcional ao relaxamento muscular generalizado. Estudos de Issa & Sullivan (1982, Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry) demonstraram que mesmo doses moderadas de álcool (2-3 doses) consumidas até 4 horas antes de dormir podem induzir ou agravar apneia obstrutiva em indivíduos previamente não apneicos.

Substâncias que agravam o ronco

  • Benzodiazepínicos: diazepam, clonazepam, lorazepam — relaxam a musculatura faríngea
  • Relaxantes musculares: ciclobenzaprina, baclofeno
  • Opioides: deprimem o centro respiratório e reduzem o tônus faríngeo
  • Anti-histamínicos sedativos: difenidramina, prometazina
  • Cannabis: embora popular como indutor do sono, estudos sugerem que o THC pode alterar a respiração durante o sono

Como identificar: ronco que aparece ou piora significativamente após consumo de álcool, ou que surgiu após início de medicamento sedativo.


Causa 5: Posição de Dormir (Supina)

Conforme detalhado em nosso artigo sobre posição de dormir e ronco, a posição supina (de barriga para cima) é um fator causador direto e modificável.

Na posição supina, a gravidade traciona a base da língua e o palato mole posteriormente, estreitando a via aérea retropalatal e retrolingual. Estudos demonstram que 50-60% dos pacientes com apneia obstrutiva do sono têm a condição classificada como posicional (Oksenberg et al., 1997, Chest).

Como identificar: ronco que ocorre predominantemente ou exclusivamente de barriga para cima e melhora ou desaparece quando a pessoa dorme de lado.


Causa 6: Idade e Envelhecimento

O envelhecimento contribui para o ronco por múltiplos mecanismos fisiológicos:

  • Perda de tônus muscular faríngeo: a musculatura dilatadora da faringe (genioglosso, tensor do véu palatino) perde força e coordenação com a idade
  • Aumento da deposição de gordura parafaríngea: mesmo sem ganho de peso global significativo
  • Redução da elasticidade dos tecidos moles: o colágeno e a elastina dos tecidos faríngeos se degradam progressivamente
  • Alterações hormonais: especialmente em mulheres na pós-menopausa (queda de progesterona, que tem efeito estimulante respiratório)

A prevalência do ronco habitual aumenta progressivamente após os 40 anos, com pico entre 60 e 70 anos (Bixler et al., 1998, American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine).

Como identificar: ronco que se instalou ou piorou gradualmente após os 40-50 anos, sem mudanças significativas de peso ou hábitos.

Motivos do Ronco

Causa 7: Tabagismo

O tabagismo crônico afeta a via aérea superior por múltiplos mecanismos:

  • Inflamação crônica da mucosa: edema e espessamento dos tecidos faríngeos e nasais
  • Disfunção mucociliar: comprometimento da drenagem de secreções
  • Dano ao reflexo neuromuscular: alteração da resposta protetora da musculatura faríngea

Uma metanálise de Franklin et al. (2004, AJRCCM) demonstrou que fumantes ativos têm 2,3 vezes mais chances de roncar que não fumantes. Ex-fumantes mantêm risco intermediário, que diminui progressivamente com o tempo de cessação.

Como identificar: ronco em fumante ativo, especialmente se acompanhado de congestão nasal crônica e tosse matinal.


Causa 8: Hipotireoidismo

O hipotireoidismo é uma causa médica frequentemente subdiagnosticada de ronco e apneia do sono. Os mecanismos incluem:

  • Deposição de mucopolissacarídeos (mixedema): espessamento dos tecidos moles da faringe
  • Macroglossia: aumento do volume da língua
  • Redução do drive respiratório central: diminuição da resposta ventilatória à hipoxemia e hipercapnia
  • Ganho de peso: efeito metabólico do hipotireoidismo

Estudos demonstram que a prevalência de apneia do sono em pacientes com hipotireoidismo é 2 a 5 vezes maior que na população geral (Resta et al., 2004, Journal of Endocrinological Investigation). O tratamento com levotiroxina pode melhorar ou resolver a apneia quando o hipotireoidismo é a causa principal.

Como identificar: ronco associado a fadiga excessiva, ganho de peso inexplicado, pele seca, constipação, intolerância ao frio. Exame de TSH confirma.


Causa 9: Refluxo Gastroesofágico (DRGE)

A relação entre refluxo gastroesofágico e ronco é bidirecional e clinicamente relevante:

  • DRGE → ronco: o refluxo ácido causa inflamação e edema da mucosa faríngea e laríngea, estreitando a via aérea e aumentando a resistência ao fluxo aéreo
  • Apneia → DRGE: as mudanças de pressão intratorácica durante eventos de apneia favorecem o refluxo

Estudos demonstram que o tratamento do refluxo com inibidores de bomba de prótons pode reduzir a intensidade do ronco em pacientes com DRGE significativa (Senior et al., 2001, The Laryngoscope).

Como identificar: ronco associado a azia, regurgitação, rouquidão matinal, pigarro frequente e sensação de globus faríngeo.


Causa 10: Congestão Nasal Crônica ou Sazonal

Diferente da obstrução anatômica fixa (septo, cornetos), a congestão intermitente também é motivo relevante de ronco:

  • Resfriados e gripes: congestão nasal transitória que induz respiração oral temporária
  • Rinite sazonal: alérgenos como pólen causam edema nasal em determinadas épocas do ano
  • Ar seco: especialmente em regiões com aquecedores ou ar-condicionado, o ar seco resseca a mucosa nasal e pode causar edema reativo

Estudos epidemiológicos confirmam que a congestão nasal crônica, independente da causa, está associada a ronco habitual e apneia do sono (Young et al., 1997, Archives of Internal Medicine).

Como identificar: ronco que piora em determinadas estações, com mudanças climáticas, ou durante infecções das vias aéreas superiores.


Como Identificar a Sua Causa: Autoavaliação

Um guia prático para direcionar a investigação:

CaracterísticaCausa ProvávelPróximo Passo
Ronco piora de barriga para cimaPosicionalTerapia posicional
Ronco piora após beber álcoolÁlcool/sedativosEliminar álcool noturno
Ronco surgiu com ganho de pesoObesidadePrograma de perda de peso
Nariz sempre entupidoObstrução nasalOtorrino
Pausas respiratórias observadasApneia do sonoPolissonografia
Ronco desde sempre, peso normalAnatomiaOtorrino + nasofibrolaringoscopia
Ronco piorou após os 50Envelhecimento + possível AOSMédico do sono
Fadiga + ganho peso inexplicadoHipotireoidismoTSH
Azia + ronco + rouquidão matinalDRGEGastroenterologista

Quando Múltiplas Causas se Sobrepõem

Na prática clínica, a maioria dos roncadores apresenta duas ou mais causas simultâneas. Um cenário típico:

  • Homem de 52 anos
  • IMC 29 (sobrepeso)
  • Desvio de septo leve
  • Consome 2-3 cervejas no jantar nos fins de semana
  • Dorme de barriga para cima

Neste caso, nenhum fator isolado seria suficiente para causar ronco significativo, mas a combinação cria um efeito sinérgico. A abordagem terapêutica deve, portanto, atacar múltiplas frentes simultaneamente para obter resultado.

Quando todas as medidas comportamentais são implementadas e o ronco persiste, especialmente se houver sinais de apneia, o CPAP oferece solução eficaz independentemente da causa subjacente — porque atua mantendo a via aérea aberta por pressão positiva, neutralizando todos os mecanismos de obstrução simultaneamente.


FAQ — Perguntas Frequentes

Por que só eu ronco e meu irmão não?

A predisposição ao ronco é multifatorial: depende da anatomia individual da via aérea (tamanho das amígdalas, posição da mandíbula, formato do palato), do peso corporal, da circunferência cervical e de hábitos pessoais. Mesmo irmãos com genética semelhante podem ter variações anatômicas significativas que explicam por que um ronca e outro não.

É verdade que homens roncam mais que mulheres?

Sim. Estudos epidemiológicos consistentemente demonstram prevalência de ronco habitual cerca de 50% maior em homens. Isso se deve a fatores anatômicos (via aérea mais longa e colapsável, maior deposição cervical de gordura) e hormonais (a progesterona tem efeito protetor em mulheres pré-menopausa). Após a menopausa, a prevalência feminina se aproxima significativamente da masculina.

Rinite alérgica pode causar ronco?

Sim. A rinite alérgica causa edema da mucosa nasal, obstrução e forçamento da respiração oral — todos fatores que predispõem ao ronco. O tratamento adequado da rinite (corticosteroides nasais, anti-histamínicos, imunoterapia) pode melhorar o ronco em pacientes cuja causa predominante é nasal.

Estresse e ansiedade causam ronco?

O estresse e a ansiedade não causam ronco diretamente, mas podem contribuir indiretamente: a privação de sono causada pela ansiedade aumenta a colapsabilidade da via aérea, e o uso de álcool ou medicamentos ansiolíticos como automedicação pode agravar o ronco. Além disso, a tensão muscular cervical crônica pode afetar a mecânica da via aérea.

Perder peso sempre resolve o ronco?

A perda de peso é altamente eficaz quando a obesidade é a causa principal ou contribuinte significativo do ronco. Porém, se o ronco é causado por fatores anatômicos (hipertrofia de amígdalas, retrognatia, desvio de septo) em uma pessoa com peso normal, a perda de peso terá pouco impacto. O tratamento deve ser direcionado à causa específica.


Conclusão

Os motivos do ronco são diversos e frequentemente se sobrepõem. A chave para um tratamento eficaz é identificar quais fatores estão atuando no seu caso específico — e isso muitas vezes requer avaliação profissional com otorrinolaringologista ou médico do sono.

Causas modificáveis como excesso de peso, consumo de álcool e posição de dormir podem ser abordadas com mudanças no estilo de vida. Causas anatômicas podem exigir intervenção cirúrgica ou uso de dispositivos. E quando o ronco está associado à apneia obstrutiva do sono, o CPAP permanece como o tratamento de referência, eficaz independentemente da causa subjacente.

Não aceite o ronco como algo inevitável. Identifique o motivo, busque o tratamento adequado e recupere a qualidade do seu sono e do sono de quem dorme ao seu lado.


Referências Científicas

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