O ronco afeta aproximadamente 57% dos homens e 40% das mulheres adultas, segundo dados publicados no periódico Sleep (Ohayon et al., 2003). Mais do que um incômodo noturno, o ronco habitual pode sinalizar condições como a apneia obstrutiva do sono — um distúrbio que, quando não tratado, está associado a hipertensão arterial, arritmias cardíacas e até acidente vascular cerebral (Javaheri et al., 2017, Journal of the American College of Cardiology).
Se você convive com alguém que ronca — ou se você mesmo é essa pessoa — entender as causas do ronco é o primeiro passo para encontrar a solução certa. Neste artigo, você vai conhecer desde ajustes simples no estilo de vida até dispositivos médicos comprovados que eliminam ou reduzem significativamente o ronco.
O que Causa o Ronco: Entendendo o Mecanismo
O ronco é produzido pela vibração dos tecidos moles da faringe — especificamente o palato mole, a úvula e as paredes laterais da orofaringe — quando o fluxo de ar encontra uma passagem parcialmente obstruída durante o sono (Stuck & Maurer, 2008, European Archives of Oto-Rhino-Laryngology).
Durante o sono, ocorre um relaxamento natural da musculatura faríngea. Em algumas pessoas, esse relaxamento é excessivo, causando estreitamento da via aérea superior. Quando o ar é forçado por essa passagem reduzida, os tecidos vibram, gerando o som característico.
Fatores que contribuem para o ronco:
- Anatomia da via aérea: palato mole alongado, úvula volumosa, hipertrofia de amígdalas ou adenoides, desvio de septo nasal e retrognatia (mandíbula retraída)
- Sobrepeso e obesidade: o acúmulo de tecido adiposo na região cervical comprime a via aérea. Estudos demonstram que um aumento de 10% no peso corporal eleva em 6 vezes o risco de desenvolvimento de apneia do sono (Peppard et al., 2000, JAMA)
- Idade: a partir dos 40 anos, a musculatura faríngea perde tônus progressivamente
- Consumo de álcool e sedativos: o álcool relaxa a musculatura faríngea de forma desproporcional, aumentando a colapsabilidade da via aérea (Issa & Sullivan, 1982, Journal of Applied Physiology)
- Posição supina (de barriga para cima): a gravidade puxa a base da língua e o palato mole para trás, estreitando a passagem de ar
- Congestão nasal: obstrução nasal crônica ou intermitente força a respiração oral, que predispõe ao ronco
Entender qual desses fatores predomina em cada caso é fundamental para escolher a abordagem terapêutica correta.

Soluções Comportamentais e de Estilo de Vida
Antes de recorrer a dispositivos ou procedimentos, mudanças no estilo de vida podem reduzir significativamente o ronco em muitos pacientes — especialmente quando o quadro é leve a moderado.
Perda de peso
A obesidade é o fator modificável mais impactante no tratamento do ronco. Uma metanálise publicada na Sleep Medicine Reviews (Araghi et al., 2013) demonstrou que a perda de peso reduz o índice de apneia-hipopneia (IAH) de forma dose-dependente: cada quilograma perdido diminui proporcionalmente a gravidade do distúrbio respiratório do sono.
Pacientes com IMC acima de 25 e circunferência cervical superior a 40 cm em homens (ou 38 cm em mulheres) devem considerar a perda de peso como prioridade terapêutica.
Mudança de posição ao dormir
Dormir de lado (decúbito lateral) é uma das medidas mais simples e eficazes para quem ronca predominantemente na posição de barriga para cima. A terapia posicional reduz o IAH em até 50% nos casos classificados como ronco posicional (Ravesloot et al., 2013, Sleep & Breathing).
Estratégias práticas incluem:
- Utilizar travesseiros posicionadores que impeçam a rotação para posição supina
- Costurar uma bola de tênis na parte posterior do pijama (técnica clássica, embora com adesão limitada)
- Dispositivos vibratórios posicionais que emitem estímulo quando detectam posição supina
Higiene do sono e hábitos noturnos
- Evitar álcool nas 4 horas antes de dormir: o efeito miorrelaxante do álcool sobre a musculatura faríngea é mais pronunciado nas primeiras horas de sono (Taasan et al., 1981, American Review of Respiratory Disease)
- Manter horários regulares de sono: a privação de sono aumenta a colapsabilidade da via aérea superior
- Elevar a cabeceira da cama em 15 a 20 graus: reduz o edema gravitacional dos tecidos faríngeos
- Evitar refeições pesadas próximo ao horário de dormir: a distensão gástrica pode elevar o diafragma e comprometer a mecânica respiratória
Exercícios orofaríngeos (terapia miofuncional)
Um ensaio clínico randomizado publicado na revista Chest (Guimarães et al., 2009) demonstrou que exercícios específicos para língua, palato mole e musculatura lateral da faringe reduziram a frequência do ronco em 36% e a intensidade em 59% após três meses de prática diária.
Os exercícios incluem:
- Pressionar a ponta da língua contra o palato duro e deslizar para trás
- Sucção da língua inteira contra o palato
- Elevação forçada do palato mole pronunciando a vogal “A” de forma intermitente
- Mastigação bilateral vigorosa
A terapia miofuncional é especialmente indicada para pacientes com ronco primário e apneia leve que buscam alternativas não invasivas.
Dispositivos e Tratamentos Anti-Ronco
Quando as mudanças comportamentais não são suficientes ou quando o ronco está associado a apneia obstrutiva do sono, dispositivos médicos oferecem soluções comprovadas e eficazes.
Dispositivos de avanço mandibular (DAM)
Os dispositivos de avanço mandibular são aparelhos intraorais que projetam a mandíbula e a língua anteriormente, aumentando o espaço retrofaríngeo e reduzindo a colapsabilidade da via aérea (Sutherland et al., 2014, Cochrane Database of Systematic Reviews).
São indicados para:
- Ronco primário
- Apneia obstrutiva do sono de grau leve a moderado
- Pacientes que não toleram o CPAP
A eficácia varia entre 50% e 80% na redução do IAH, com melhores resultados em pacientes com apneia posicional e sem obesidade grave.
Dilatadores nasais e adesivos nasais
Os dilatadores nasais externos (como fitas adesivas que abrem as narinas) e internos (stents nasais de silicone) atuam reduzindo a resistência nasal ao fluxo aéreo. Uma revisão sistemática na Rhinology (Dinardi et al., 2015) concluiu que esses dispositivos podem reduzir a intensidade do ronco em pacientes cuja causa predominante é a obstrução nasal, mas apresentam eficácia limitada quando o ronco se origina na orofaringe.
São mais eficazes como terapia complementar do que como tratamento isolado.
CPAP — O padrão-ouro para ronco associado à apneia
O CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) é considerado o tratamento de referência para a apneia obstrutiva do sono, e sua eficácia na eliminação do ronco é praticamente total — aproximando-se de 100% quando corretamente titulado (Sullivan et al., 1981, The Lancet; Epstein et al., 2009, Journal of Clinical Sleep Medicine).
O dispositivo funciona gerando um fluxo contínuo de ar pressurizado através de uma máscara nasal, oronasal ou pillow, mantendo a via aérea superior aberta durante todo o ciclo respiratório. Isso impede completamente o colapso dos tecidos faríngeos e, consequentemente, elimina tanto o ronco quanto os eventos de apneia.
Quando o CPAP é indicado para quem ronca:
- Ronco associado a apneia do sono confirmada por polissonografia
- Ronco grave que não responde a medidas comportamentais
- Presença de sonolência diurna excessiva, fadiga crônica ou hipertensão de difícil controle
- IAH (Índice de Apneia-Hipopneia) igual ou superior a 5 eventos por hora com sintomas, ou superior a 15 eventos por hora independentemente de sintomas
Tipos de CPAP:
- CPAP automático (Auto-CPAP): ajusta a pressão automaticamente conforme a necessidade do paciente durante a noite, oferecendo maior conforto
- CPAP fixo: mantém uma pressão constante definida pelo médico durante toda a noite
- BiPAP: indicado para casos mais graves ou pacientes que necessitam de pressões mais altas, oferece pressões diferentes para inspiração e expiração
A adaptação ao CPAP pode levar algumas semanas, mas estudos mostram que pacientes que utilizam o aparelho regularmente apresentam melhora significativa na qualidade do sono, redução da sonolência diurna e diminuição do risco cardiovascular (Marin et al., 2005, The Lancet).
Cirurgias para o ronco
Procedimentos cirúrgicos são considerados quando tratamentos conservadores falham e existe uma causa anatômica identificável:
- Uvulopalatofaringoplastia (UPPP): remoção de tecido excessivo do palato mole e úvula. Eficácia de 40-60% na redução do IAH (Stuck et al., 2005, Otolaryngology–Head and Neck Surgery)
- Septoplastia: correção do desvio de septo nasal para melhorar o fluxo aéreo
- Turbinectomia: redução das conchas nasais hipertróficas
- Cirurgia de avanço maxilomandibular: reposicionamento dos maxilares, indicada para casos graves com retrognatia
- Implantes palatais (Pillar): inserção de hastes de poliéster no palato mole para enrijecê-lo e reduzir a vibração
A indicação cirúrgica deve ser avaliada por um otorrinolaringologista ou cirurgião de sono, após avaliação minuciosa da anatomia da via aérea com nasofibrolaringoscopia.
Como Identificar se o Ronco é Perigoso
Nem todo ronco é apenas um incômodo. Alguns sinais indicam que o ronco pode estar associado à apneia obstrutiva do sono, condição que exige avaliação médica:
- Pausas respiratórias observadas pelo parceiro durante o sono
- Engasgos ou sufocamento noturno
- Sonolência diurna excessiva mesmo após dormir horas suficientes
- Cefaleia matinal frequente
- Noctúria (acordar várias vezes para urinar)
- Dificuldade de concentração e irritabilidade
- Hipertensão arterial de difícil controle
A presença de dois ou mais desses sinais justifica a realização de uma polissonografia — o exame padrão-ouro para diagnóstico de distúrbios do sono (Kapur et al., 2017, Journal of Clinical Sleep Medicine).
O questionário STOP-Bang é uma ferramenta de triagem validada que ajuda a identificar o risco de apneia do sono, considerando fatores como ronco alto, cansaço diurno, apneia observada, pressão arterial alta, IMC, idade, circunferência cervical e sexo.
Passo a Passo: O que Fazer Quando Alguém Ronca
Se você quer ajudar alguém a parar de roncar, siga esta abordagem estruturada:
- Observe o padrão do ronco: é posicional? Há pausas respiratórias? Qual a intensidade?
- Implemente medidas iniciais: mudança de posição, elevação da cabeceira, evitar álcool à noite
- Avalie fatores de risco: sobrepeso, idade, consumo de álcool, medicamentos sedativos
- Procure um médico se houver sinais de apneia (pausas respiratórias, sonolência diurna)
- Realize polissonografia quando indicado pelo profissional
- Inicie o tratamento adequado: desde exercícios orofaríngeos até CPAP, conforme diagnóstico
- Acompanhe a evolução: o tratamento do ronco é um processo que pode exigir ajustes
FAQ — Perguntas Frequentes
O ronco tem cura definitiva?
O ronco pode ser eliminado ou significativamente reduzido na maioria dos casos, mas a abordagem depende da causa subjacente. Quando relacionado ao excesso de peso, a perda ponderal pode resolver completamente o quadro. Em casos de apneia do sono, o tratamento com CPAP controla efetivamente o ronco enquanto utilizado. Cirurgias podem oferecer soluções mais permanentes quando há causa anatômica definida.
Remédios caseiros funcionam para parar de roncar?
Algumas medidas caseiras têm respaldo científico, como dormir de lado, evitar álcool antes de dormir e elevar a cabeceira da cama. Porém, chás, óleos essenciais e sprays caseiros não possuem evidência científica robusta de eficácia para o ronco. O mais importante é não substituir a avaliação médica por abordagens sem comprovação, especialmente se houver sinais de apneia do sono.
Crianças que roncam precisam de tratamento?
Sim. O ronco habitual em crianças não é normal e está frequentemente associado à hipertrofia de adenoides e amígdalas. Estudos publicados na Pediatrics demonstram que o ronco infantil não tratado pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, o desempenho escolar e o crescimento (Marcus et al., 2012). A avaliação com otorrinolaringologista pediátrico é recomendada.
O CPAP é desconfortável para dormir?
A adaptação ao CPAP requer um período de acostumamento que geralmente dura de 2 a 4 semanas. As máscaras modernas são significativamente mais leves e confortáveis que os modelos antigos. Existem diferentes tipos — nasal, oronasal e pillow — permitindo que cada paciente encontre a opção mais adequada ao seu perfil. A maioria dos pacientes relata melhora drástica na qualidade do sono após a adaptação, o que motiva a continuidade do uso.
Roncar alto é mais perigoso que roncar baixo?
A intensidade do ronco pode indicar um grau maior de obstrução da via aérea, mas o volume sozinho não determina a gravidade. O fator mais importante é a presença ou ausência de eventos de apneia (pausas respiratórias). Um ronco moderado acompanhado de apneia é mais preocupante que um ronco alto sem pausas. A polissonografia é o único exame que determina com precisão a gravidade do quadro.
Qual médico procurar para tratar o ronco?
O otorrinolaringologista e o médico especialista em medicina do sono são os profissionais mais indicados para avaliação e tratamento do ronco. Dependendo do caso, pneumologistas e neurologistas com formação em sono também podem conduzir o acompanhamento. Para a abordagem inicial, o clínico geral pode solicitar a polissonografia e encaminhar ao especialista adequado.
Conclusão
Fazer uma pessoa parar de roncar exige, antes de tudo, identificar corretamente a causa do ronco. Soluções genéricas raramente funcionam de forma duradoura porque o ronco é multifatorial — o que funciona para uma pessoa pode ser ineficaz para outra.
A abordagem baseada em evidências começa com mudanças no estilo de vida (perda de peso, posição de dormir, higiene do sono), progride para dispositivos comprovados (dispositivos de avanço mandibular, CPAP) e, quando necessário, considera opções cirúrgicas específicas.
O mais importante é não normalizar o ronco habitual. Quando o ronco é frequente, intenso ou acompanhado de pausas respiratórias, a avaliação médica com polissonografia é fundamental para descartar apneia obstrutiva do sono — uma condição que, quando tratada adequadamente, melhora não apenas o sono, mas a saúde cardiovascular, a disposição diurna e a qualidade de vida como um todo.
Referências Científicas
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