Durante muito tempo, o ronco foi tratado como algo engraçado. O “tio que ronca no sofá” ou o marido que parece uma “motosserra” sempre foram motivos de risadas em reuniões de família. Mas, na intimidade do quarto, quem convive com o barulho sabe que a realidade é bem diferente.
Se você está lendo este artigo, é provável que a fase da piada tenha passado. Agora, o sentimento é de preocupação. Talvez você tenha percebido que seu parceiro(a) para de respirar à noite, ou talvez seja você quem acorda exausto, sentindo que o sono não descansou nada.
A decisão de procurar ajuda profissional é o passo mais importante que você pode dar. Mas surge a dúvida: qual médico cuida do ronco? É problema de nariz? De pulmão? De garganta?
Neste guia, vamos esclarecer exatamente quando o ronco deixa de ser inofensivo, qual especialista você deve procurar e o que esperar da consulta que pode mudar suas noites de sono.
Os Sinais de Alerta: Quando o Ronco Exige uma Avaliação Médica

Nem todo ronco é sinal de doença, mas todo ronco alto e frequente merece investigação. Como saber se é hora de marcar uma consulta?
O corpo dá sinais claros de que o ronco está afetando sua saúde. Se você (ou seu familiar) apresenta um ou mais dos sintomas abaixo, a busca por um médico não deve ser adiada:
- Volume Excessivo: O ronco é tão alto que incomoda não só quem dorme ao lado, mas pode ser ouvido em outros cômodos da casa.
- Pausas Respiratórias (Apneia): Este é o sinal mais crítico. O parceiro(a) observa momentos de silêncio absoluto (onde a pessoa para de respirar) seguidos de uma retomada ruidosa.
- Engasgos Noturnos: Acordar no meio da noite com sensação de sufocamento, falta de ar ou tossindo.
- Sonolência Excessiva Diurna: Sentir muito sono durante o dia, cochilar facilmente vendo TV, em reuniões ou, pior, ao dirigir. Isso indica que o sono não foi reparador.
- Dores de Cabeça Matinais: Acordar frequentemente com dor de cabeça difusa, sinal de má oxigenação durante a noite.
- Hipertensão de Difícil Controle: Pressão alta que não estabiliza mesmo com remédios pode ser consequência do esforço cardíaco noturno causado pela apneia.
Qual Médico Procurar? O Especialista em Medicina do Sono
Essa é a dúvida mais comum. Como o ronco envolve a passagem de ar, a maioria das pessoas pensa imediatamente no Otorrinolaringologista. E elas não estão erradas, mas a resposta é um pouco mais ampla.
O profissional ideal para diagnosticar e tratar o ronco e a apneia é o Médico do Sono.
A “Medicina do Sono” é uma área de atuação que pode ser exercida por médicos de diferentes formações, desde que tenham a especialização necessária. Os mais comuns são:
- Otorrinolaringologista: Avalia a parte anatômica (nariz, garganta, amígdalas) para ver se há obstruções físicas.
- Pneumologista: Foca na parte respiratória e na oxigenação.
- Neurologista: Analisa como o cérebro se comporta durante o sono.
Ao agendar sua consulta, verifique se o profissional tem experiência ou certificação em Medicina do Sono. Ele terá a visão completa para não apenas olhar o seu nariz, mas entender o seu sono como um todo.
O que Esperar da Consulta e do Diagnóstico? A Polissonografia

Muitas pessoas adiam a ida ao médico por medo de exames invasivos ou dolorosos. Pode ficar tranquilo: a investigação do sono é indolor e não invasiva.
A consulta geralmente começa com uma anamnese detalhada. O médico vai perguntar sobre seus hábitos, horários de dormir, se você bebe ou fuma e, principalmente, vai querer ouvir o relato de quem dorme com você (pois o paciente raramente percebe o próprio ronco).
O Exame Chave: Polissonografia
Para confirmar o diagnóstico, o médico solicitará o exame padrão-ouro: a Polissonografia.
Pense nela como um “mapa do seu sono”. Você passará uma noite monitorada (pode ser em uma clínica ou, em alguns casos, na sua própria casa com um equipamento portátil).
Sensores colados à pele (sem agulhas!) vão registrar:
- Suas ondas cerebrais (para saber se você está em sono profundo ou leve);
- Seu fluxo respiratório e oxigenação do sangue;
- Os movimentos do tórax e das pernas;
- A frequência cardíaca.
É esse exame que vai dizer, com precisão matemática, se você tem apneia do sono e qual o grau de gravidade (leve, moderada ou grave).
Após o Diagnóstico: Conhecendo as Opções de Tratamento
Com o laudo da polissonografia em mãos, o médico poderá traçar a melhor estratégia.
Se o diagnóstico for Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), especialmente em graus moderados a graves, a recomendação médica principal na maioria dos casos será o uso do CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas).
O médico fará a prescrição indicando a pressão de ar ideal para manter suas vias aéreas abertas. É com essa receita que você buscará o equipamento adequado.
Lembre-se: o CPAP é um tratamento médico. Ele não serve apenas para silenciar o ronco, mas para garantir que você respire e oxigene seu corpo corretamente durante a noite, prevenindo infartos, derrames e devolvendo sua qualidade de vida.
Conclusão: Procurar um Médico é o Ato Mais Importante de Cuidado
Ignorar o ronco é ignorar um pedido de ajuda do seu corpo. Muitas pessoas passam anos sofrendo com cansaço crônico e riscos cardíacos desnecessários por acharem que “roncar é normal”. Não é.
A consulta com um médico do sono não é um luxo, é uma necessidade de saúde. O diagnóstico correto separa o que é um problema simples de anatomia do que é uma doença respiratória séria.
Não espere o susto de um engasgo noturno para agir. Marque sua consulta. Descobrir a causa é o primeiro passo para encontrar a solução — e a tecnologia de hoje, com tratamentos como o CPAP, garante que noites tranquilas e silenciosas são totalmente possíveis de serem recuperadas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O plano de saúde cobre a polissonografia?
Sim. A polissonografia consta no rol de procedimentos da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e tem cobertura obrigatória pelos planos de saúde, mediante indicação médica.
2. Posso comprar um CPAP sem ir ao médico?
Não é recomendado. Embora a compra seja livre em muitos lugares, o CPAP precisa ser configurado (calibrado) com uma pressão específica para o seu caso. Usar uma pressão errada pode tornar o tratamento ineficaz ou causar desconforto. A prescrição médica é o seu guia de segurança.
3. Dentista também trata ronco?
Sim, mas com limitações. Dentistas especializados em sono podem confeccionar aparelhos intraorais (que avançam a mandíbula). Eles são indicados geralmente para ronco primário ou apneia leve. Para apneia moderada a grave, o médico do sono é quem deve conduzir o tratamento, geralmente com CPAP.
4. A polissonografia dói ou incomoda?
Não dói nada, pois não há agulhas ou cortes. O incômodo pode ser apenas o de dormir com alguns fios e sensores colados no corpo e na cabeça, o que pode estranhar na primeira vez, mas é perfeitamente suportável.
5. Preciso de encaminhamento para ir ao médico do sono?
Depende do seu plano de saúde. Alguns exigem que você passe primeiro por um clínico geral. Se for consulta particular, você pode agendar diretamente com um Otorrino, Pneumologista ou Neurologista que tenha a área de atuação em Medicina do Sono.
