Você frequenta a academia para fortalecer as pernas ou o abdômen, mas já parou para pensar que os músculos da sua garganta também podem precisar de um treino? Pode parecer estranho à primeira vista, mas a lógica é a mesma: músculos flácidos tendem a ceder.
Muitas pessoas buscam soluções naturais para o ronco, tentando evitar o uso de aparelhos ou procedimentos invasivos. E a pergunta que surge é: “É possível parar de roncar apenas fazendo exercícios com a boca?”.
A resposta é cautelosa, mas otimista: sim, é possível reduzir o ronco em casos específicos. Fortalecer a musculatura das vias aéreas superiores é uma estratégia validada pela ciência para diminuir o barulho noturno.
Neste artigo, vamos explicar como essa “musculação” funciona, ensinar 5 exercícios práticos que você pode começar hoje mesmo e, o mais importante, explicar para quem essa técnica realmente traz resultados e quando ela não é suficiente.
Como Funcionam os Exercícios Orofaringeanos?
Para entender por que os exercícios funcionam, precisamos lembrar por que o ronco acontece. Na maioria das vezes, o ruído é causado pela vibração dos tecidos moles da garganta (como o palato mole, a úvula e a língua) que relaxam excessivamente durante o sono e bloqueiam parcialmente a passagem do ar.
Os exercícios orofaringeanos — tecnicamente chamados de Terapia Miofuncional — têm um objetivo claro: tonificar essa musculatura.
Pense na sua garganta como uma barraca de camping. Se a lona (os músculos) estiver frouxa, ela vai balançar e fazer barulho com o vento. Se a lona estiver esticada e firme, o vento passa sem causar vibração. Ao fortalecer a língua e o céu da boca, tornamos essas estruturas mais firmes e menos propensas a desabar ou vibrar enquanto você dorme.
Guia Prático: 5 Exercícios que Você Pode Fazer Hoje

A consistência é a chave. Assim como na academia, fazer esses exercícios uma vez por mês não trará resultados. O ideal é praticar diariamente, por cerca de 10 a 15 minutos (pode ser no banho, no trânsito ou assistindo TV).
Aqui estão 5 técnicas simples para começar:
1. O Deslizamento da Língua
Este exercício foca em fortalecer a base da língua.
- Como fazer: Coloque a ponta da língua logo atrás dos dentes da frente superiores. Pressione e deslize a língua para trás, “varrendo” o céu da boca o máximo que conseguir, sem soltar.
- Repetição: Faça esse movimento 20 vezes.
2. A Sucção no Céu da Boca
Excelente para tonificar o palato mole.
- Como fazer: Pressione a língua inteira contra o céu da boca (como se fosse fazer um estalo ou sugar uma bala presa ali). Mantenha a língua “grudada” lá em cima fazendo pressão por 10 segundos e depois relaxe.
- Repetição: Repita 10 vezes.
3. A Elevação do Palato (O “Aaaah”)
Este ajuda a levantar a úvula e abrir a garganta.
- Como fazer: Fique de frente para um espelho. Abra a boca e diga um “Aaaah” prolongado (como no médico). O objetivo é ver a úvula (a campainha) subir. Tente manter a úvula elevada por alguns segundos sem emitir som.
- Repetição: Repita 20 vezes.
4. O Exercício da Bochecha
Fortalece a musculatura lateral da boca, ajudando a manter a estrutura firme.
- Como fazer: Coloque o dedo indicador por dentro da boca, contra a bochecha. Empurre a bochecha para fora com o dedo, e ao mesmo tempo, use o músculo da bochecha para empurrar o dedo para dentro (faça resistência).
- Repetição: Faça 10 vezes de cada lado.
5. Mastigação Simulada
Ajuda a trabalhar a mandíbula e a musculatura envolvida na abertura da via aérea.
- Como fazer: Finja que está mastigando uma comida muito dura ou um chiclete grande. Faça movimentos amplos e exagerados com a mandíbula, mantendo os lábios fechados, e alterne o lado da “mastigação”.
- Repetição: Faça isso por 1 ou 2 minutos seguidos.
A Verdade Sobre a Eficácia: Para Quem os Exercícios Realmente Funcionam?
É importante gerenciar as expectativas. Os exercícios para ronco não são uma pílula mágica que resolve o problema na primeira noite. Eles exigem tempo (geralmente de 2 a 3 meses de prática diária) para mostrar resultados consistentes.
Estudos clínicos mostram que a terapia miofuncional é eficaz principalmente para:
- Ronco Primário: Pessoas que roncam, mas não têm paradas respiratórias.
- Apneia Leve: Pessoas com um índice baixo de eventos respiratórios por hora.
Nestes grupos, os exercícios podem reduzir significativamente a intensidade (volume) e a frequência do ronco, melhorando a qualidade do sono do parceiro e do paciente.
A Limitação Inegociável: Quando os Exercícios Não São Suficientes
Aqui precisamos ser muito honestos para garantir a sua segurança. Se você tem Apneia Obstrutiva do Sono moderada ou grave, os exercícios sozinhos não serão suficientes. Na apneia grave, o colapso da via aérea é total. A força física necessária para manter a garganta aberta supera a capacidade muscular, não importa o quanto você exercite a língua.
Nesses casos, confiar apenas nos exercícios pode ser perigoso, pois a pessoa continua sofrendo com a falta de oxigenação e o risco cardiovascular, mesmo que o barulho do ronco diminua um pouco. Para a apneia moderada a grave, a intervenção precisa ser mecânica e garantida. O uso do CPAP continua sendo a única forma segura de manter a via aérea aberta 100% do tempo.
Isso não significa que você não possa fazer os exercícios! Eles podem ser um ótimo tratamento complementar ao uso do CPAP, ajudando na adaptação e na saúde geral da boca, mas não devem substituir o tratamento médico principal.
Conclusão: Exercícios como Aliados, Não como a Única Solução
A ideia de “malhar a garganta” é válida e pode trazer ótimos benefícios, especialmente para quem está começando a roncar ou tem quadros leves. É uma solução natural, sem custo e que melhora a saúde bucal.
Nossa recomendação? Experimente! Comece hoje mesmo a rotina de exercícios.
No entanto, fique atento. Se após alguns meses o ronco persistir, ou se você sente muito cansaço diurno e acorda engasgado, não insista apenas na técnica natural. O ronco pode ser apenas a ponta do iceberg de uma condição que exige cuidado profissional. Consulte um médico do sono para um diagnóstico preciso. Afinal, dormir bem é coisa séria.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Quanto tempo demora para os exercícios de ronco fazerem efeito?
Como qualquer musculação, não é imediato. A maioria dos estudos indica que os resultados começam a ser percebidos após 2 a 3 meses de prática diária e consistente.
2. Mascar chiclete ajuda a parar de roncar?
Não necessariamente. Embora a mastigação exercite a mandíbula, o movimento repetitivo e curto de mascar chiclete não trabalha a língua e o palato da mesma forma que os exercícios específicos de terapia miofuncional.
3. Cantar ajuda a diminuir o ronco?
Sim! Um estudo famoso realizado na Inglaterra mostrou que cantores têm músculos da garganta mais tonificados. Exercícios de canto que trabalham a elevação do palato e a projeção de voz funcionam de forma muito similar à terapia miofuncional.
4. Posso fazer os exercícios mesmo usando CPAP?
Com certeza. Inclusive, fortalecer a musculatura pode ajudar a evitar que a boca se abra durante o uso da máscara nasal, melhorando a eficiência do tratamento com o CPAP.
5. Se eu parar de fazer os exercícios, o ronco volta?
Provavelmente sim. A musculatura precisa de estímulo constante para se manter tonificada. Se você parar de exercitar, os tecidos tendem a ficar flácidos novamente com o tempo e a idade.

